s Egito - Guia para Brasileiros

04 Março 2006

Alimentação

Na minha modesta e sólida opinião, há dois tipos de turistas: os que experimentam as novidades como se a comida também fizesse parte da viagem (e da descoberta de uma nova cultura) e os que deveriam ficar em casa. É claro que há graduações para esse meu radicalismo: há convicções religiosas, alergias (eu, por exemplo, não posso comer peixe, sob risco de sufocamento) e até mesmo concessões que as pessoas não desejam fazer. Eu gostaria de dizer que comerei todos os tipos de vermes quando visitar os mercados na Tailândia, mas não tenho assim tanta certeza.
O que não entra na minha cabeça é alguém ir à Bahia e perguntar no primeiro dia no restaurante o que não tem nem dendê, nem leite de coco, nem pimenta, nem camarão, nem peixe, nem... Ou ir ao Japão e pedir filé com fritas.
Provou e não gostou? Pronto, ganhou habeas corpus pra não comer mais. Tá de saco cheio porque está há quatro dias comendo churrasco com sal grosso? Eu concordo que tá na hora da canjinha.
Uma mania de brasileiro que eu não suporto é a de ficar com saudade de arroz e feijão no momento em que embarca no avião. Dá licença, uma coisa é morar seis meses no exterior e fazer qualquer coisa por uma feijoada. Em Barcelona, eu tinha um amigo que fazia charque na sacada do apartamento, pra usar no carreteiro.
Outra coisa completamente diferente (e ridícula) é passar um mês viajando e falar todo dia na comidinha da mamãe. Num mundo onde há uma variedade incrível de frutas, verduras, cereais, carnes, frutos do mar e temperos e uma admirável criatividade dos povos para prepará-los, não existe explicação para que os chatos não encontrem absolutamente nada gostoso para comer.
Eu não quero dizer com isso, é claro, que eu não acredite em alguém que, ao voltar de uma viagem, me diga: "A comida lá é horrível. Era uma coisa pior do que a outra." Eu não só acredito como reverencio essa criatura, porque ela experimentou e sabe do que está falando.
Bom, veneno destilado, passo agora para a comida no Egito.
A regra geral é: se você não gosta de cozinha árabe, terá problemas. Lá, come-se muito carneiro, muita hortelã, muito trigo sarraceno, muita berinjela, muito grão de bico... Para quem gosta, é um banquete atrás do outro. As refeições são uma versão original dos rodízios de comida árabe que nós temos no Brasil: fartas e ainda mais saborosas. E terminam com aqueles doces maravilhosos, banhados em mel.
O pão é um capítulo à parte: crocante, sempre fresquinho e assado em ardentes fornos a lenha. Ver as mulheres preparando os pães à beira do Nilo, no chão, é um espetáculo. Desde que você se convença, é claro, de que o pão servido nos restaurantes é feito em condições mais higiênicas do que aquelas.
Nos barcos e nos hotéis, há comida “internacional”, daquele tipo pasteurizado servido em restaurantes do interior do Brasil (como eles fazem para que o Filé à Moscovita tenha o mesmo gosto do Frango Recheado à Moda? Devem ser as batatas fritas...). Se você se aventura pela culinária exótica mas precisa de respiros, é uma boa tática almoçar filé com purê de batatas no barco ou no hotel (abrigado do calor e com a caminha prontinha pra sesta) e jantar em locais típicos (os mercados são sempre uma boa opção).
Tente ser razoável e não se impressionar muito com as condições de higiene. Lembre-se de que muito da "sujeira" que você verá se deve mais a um senso estético diferente do que a reais problemas sanitários. À primeira vista, os prédios sem reboco e as ruas sem calçamento dão a impressão de miséria generalizada, mas bastam alguns dias para que a gente se dê conta de que asfalto e tinta correspondem muito mais às nossas prioridades do que às deles.
Não seja maníaco por limpeza (ou você não vai comer nada), mas também não seja suicida. Use água mineral (inclusive para escovar os dentes) e não ingira nada cru, especialmente nas cidades do Baixo Egito. A população vive em completa simbiose com o Nilo, e os dejetos são jogados no rio com a mesma naturalidade com que a água é usada para beber e limpar. Eles têm anticorpos que nós jamais vamos adquirir.
Também não custa seguir a dica dos guias e evitar tomar água gelada ao chegar dos escaldantes passeios pelo deserto. Eles juram que o choque térmico é que desacerta o intestino do pessoal.
Um conselho final: pelo amor de Deus, não viaje pensando que vai ter uma diarréia. Eu não tenho nenhuma dúvida de que isso atrai infecção intestinal. Todas as pessoas que eu conheço portadoras dessa paranóia pegaram perebas na Bahia, no México, na Índia... É como se fizesse parte do roteiro. Eu ainda vou conseguir provar uma teoria científica de que micróbio prefere seres humanos que têm medo deles...
Se servir como consolo, conto que nenhum dos 40 espanhóis que viajou conosco teve nada de muito estranho. E isso que eles passaram o tempo inteiro reclamando da comida e morrendo de saudades de bocadillo de jamón. Obtusidade, como se vê, não é exclusividade dos trópicos...

Brasileiros no Egito

Nós tivemos que tomar vacina contra febre-amarela, e queriam também exigir uma certa vacina contra a cólera, que os espanhóis se recusaram a nos aplicar. O pessoal do posto de saúde de Barcelona disse que vacina contra a cólera é uma coisa ridícula e ainda por cima não faz efeito. Não tomamos e ninguém pediu quando entramos.
As exigências "sanitárias" são para brasileiros e outros espécimes do Terceiro Mundo. Espanhol entra sem precisar tomar nada.
Vacinas à parte, os egípcios são fãs do Brasil. Por causa do futebol, claro. Eles adoram. Se você tem saco pra esses papos, pode perder horas conversando sobre temas edificantes como Pelé. Grunf.

20 Fevereiro 2006

Fazendo a mala

Eu sou uma daquelas pessoas que acha que os turistas devem, sim, respeitar a cultura local. Se algo num país lhe desagrada a ponto de você não suportar, isso é um sinal de que não se deve ir. A ausência é o melhor protesto.
Eu só me vejo oculta sob uma burka, por exemplo, se for no papel de jornalista buscando informações relevantes. Não há nada como turista que me atraia a ponto de eu me submeter a uma coisa dessas.
No Egito, não é preciso esconder o corpo, mas também é conveniente não mostrar demais. Tanto para homens quanto para mulheres, o mais adequado e respeitoso é usar bermudas pelo joelho e camisetas com pelo menos um pouquinho de mangas (pode até ser sem manga, desde que não seja uma daquelas coisas cavadas até a cintura, que deveriam ser proibidas pela polícia do bom-gosto). Esse atuendo permite entrar na maioria dos locais, incluindo as mesquitas, e é fresquinho para os padrões ocidentais (se fôssemos inteligentes, compraríamos logo no primeiro dia uma djelabah, que é de algodão, tem mangas compridas e vai ate os pés, e mantém a temperatura do corpo).
Alguns locais mais conservadores sugerirão que você se cubra um pouco mais, mas para isso serve uma camisa de mangas compridas, que eu carregava na bolsa. Se você achar a idéia ofensiva, não entre e pronto. À exceção dos terroristas fanáticos, que querem espantar os turistas porque acham que eles estão corrompendo o país, ninguém vai criticar a sua escolha. Os egípcios respeitam bastante os estrangeiros, desde que sejam também respeitados.
Leve um chapéu. Não, não serve aquele boné que você ganhou da firma. Boné esquenta a cabeça e não protege nada. Eu levei um de palha com abas e foi a melhor sacada que eu tive na hora de arrumar as malas (bom, na verdade, ele foi na bagagem de mão, pra não amassar). Se você fizer questão de levar alguma coisa que entre na mala, certifique-se de que é arejado (palha, palha!) e faz sombra até os ombros.
Não vou nem mencionar o protetor solar. Leve um fator acima do que você costuma usar na praia, e não deixe para comprar lá. O mesmo vale para cosméticos e produtos de higiene pessoal: leve. Os mercados, como se pode imaginar, não são muito acessíveis nem muito variados em marcas ocidentais, e eu acho uma perda incrível de tempo ficar procurando condicionador leave-in antifrizz para cabelos cacheados quando se tem uma porção de múmias pra visitar. Deixe pra fazer isso em Miami, se conseguir um visto.
Se você for homem, leve um tênis usado e uma sandália bem protegida. E vários pares de meias de algodão pra absorver quantidades oceânicas de suor.
Se for mulher, leve o que se adequar ao seu próprio conceito de confortável. Se você acha que uma plataforma é perfeita para andar quilômetros na areia sob um calor de 45 graus durante três ou quatro horas, sem ter onde sentar e ainda por cima tendo que subir em pedras enormes, vá em frente. Meu único conselho radical é: evite calçados muito abertos, que não protejam os pés de cortes.
Eu, que sou uma mulherzinha muito de meia-tigela, levei tênis surrado e sandalinhas baixas. Mas, como ainda assim sou mulher, levei uma sandália apresentável pra alguma ocasião especial. E rolou.
Ah, não esqueça do chapéu.
Leve alguma espécie de bolsa pra carregar a tralha no dia-a-dia. A escolha depende do que você acha indispensável e apresentável. Se uma pochete entra no seu guarda-roupa de viagem sem que você depois tenha vergonha de mostrar as fotos pros amigos, leve uma. De qualquer modo, o melhor é escolher sempre um modelo fácil de carregar. Eu prefiro a mochila.
Pra você ter uma idéia, o meu peso diário incluía: câmera fotográfica, câmera de vídeo (hoje dá pra ter as duas coisas num trambolho só, mas na época ainda não existia essa opção), baterias sobressalentes (coisa obsoleta, não?), garrafona de água (qualquer coisa com menos de 1,5 litro termina em uma hora), uma roupa de mangas compridas, coisinhas pra comer e um bom guia pesadão (pra ler no ônibus, a caminho do ponto turístico, e pra ler também na volta e conferir se a versão que o guia humano contava estava de acordo com a do guia-livro. Pois é, a gente pode tentar diminuir os objetos que carrega, mas a neurose é difícil de deixar em casa).
Pra quem achou absurdo carregar câmera de vídeo, apresento minhas explicações: eu também acho uma chatice filmar viagem, mas no Egito não dá pra resistir à tentação. Lá tem muita coisa pra rever depois.
Não esqueça do chapéu.
Se você também for fazer um "cruzeiro", como nós, haverá uma noite de festa à fantasia. Não leve nada além de maquiagem (para fazer olhos estilo "kajal" para as mulheres e bigodes fake para os homens). Os barcos alugam adereços, e é mais divertido comprar o resto nos mercados. Pode ser uma roupa de dançarina do ventre, ou uma djellaba incrementada que servirá de lembrança de viagem ou de presente para aquele tio que gosta de usar roupa de sheik no carnaval.
Leve roupa de banho, porque há piscina nos hotéis e nos barcos. Serve qualquer coisa que não deixe a bunda toda de fora. E, à maneira européia, não circule de biquíni ou sunga longe da piscina. Ponha uma camiseta E também um short para ir para o quarto ou ao restaurante. Assim como também ocorre nas cidades mediterrâneas (as mesmas onde o topless é regra e que permitem nudismo na praia), basta colocar o pé no calçadão pra comprar picolé para que o bom-gosto exija que se vista roupa minimamente urbana.
Ah, e não se esqueça do chapéu.

Quando e como foi

Viajamos em setembro de 1997, com um grupo de espanhóis. O vôo fretado partiu de Barcelona, pegou um pessoal em Madri e rumou direto para Luxor, no Baixo Egito. Lá, pegamos um "cruzeiro" (não, nada parecido com esses edifícios luxuosos e flutuantes que costeiam o Brasil) pelo Nilo, indo até Assuã. De lá, fomos de ônibus, deserto afora, até Hurghada, no Mar Vermelho. Depois, de ônibus outra vez, até o Cairo. No total, foram 15 dias.
Sou uma daquelas pessoas que acham que a indiada se define pelo calibre do índio, então não me arrisco a dizer que as nossas escolhas possam ou não servir de exemplo para outros viajantes. O que dá pra fazer é contar o que decidimos (e o que decidiram por nós) e o quanto isso foi bom ou não naquela época e no nosso caso.
A primeira é que ficamos muito satisfeitos por ter comprado um pacote com guia. Normalmente eu não gosto muito de guias (e meu marido não gosta nunca, nunquinha), mas dessa vez achei indispensável. Por um lado, porque é impossível absorver a informação sobre todos os locais que serão visitados lendo livros antes de embarcar. Também é difícil escolher o que deve ou não ser visto. Por outro lado, porque a presença do guia, se não for muito invasiva, dá segurança. Com um nativo boa-praça, é mais fácil circular pelos mercados, fumar narguilé, negociar preços de passeios e ate conseguir socorro no caso de uma emergência.
Não que os egípcios não vão entender o que você está falando. Como bons descendentes de árabes, eles tem uma incrível facilidade com idiomas, e só não compreendem o que se está dizendo se o conteúdo for inconveniente para eles. Nos mercados, quando o objetivo é vender, eles seguem o turista poligloteando até adivinhar a língua materna da vítima. No Cairo, eu vi mais de um barganhar em basco. Em catalão, então...

25 Janeiro 2006

Não vá agora

Se quiser um conselho, eu dou: não vá. O Egito é um país imperdível, e deve estar na lista de pendências de todo viajante que se preze, mas ele seguirá no mesmo lugar pelos próximos anos (assim espero), e o risco de ser esquartejado por um terrorista fanático no meio das férias não vale a empreitada.
Nós estivemos lá em 1997, e eu não me arrependo. Mas, confesso: se, antes de embarcar, eu tivesse a mais remota idéia das ameaças contra turistas estrangeiros, não teria ido. Não tínhamos nenhuma informação de que uma morte cruel fosse uma possibilidade prevista no roteiro, e olhe que compramos o pacote na Espanha e viajamos com um grupo de espanhóis.
Na Europa, os turistas costumam se informar sobre os potenciais perigos que enfrentarão no seu destino (e alguns até escolhem os locais em função de um inexplicável desejo por ser seqüestrados/assaltados/presos, como se essas desgraças não passassem de uma excursão pelo mundo real), e o próprio fato dos europeus terem o saudável hábito de ler diariamente noticias sobre a África e a Ásia nos fazia crer que, se nada havia saído no El País sobre o assunto nos últimos meses, era porque o Egito era tão seguro quanto as Ramblas de Barcelona (ou seja, era só manter a carteira bem junto ao corpo que tudo estaria bem).
A alegre segurança que nos provia a ignorância era tanta que uma das nossas piadas durante a viagem era sobre os militares de escopeta que o governo distribuía a esmo pelos locais turísticos. Eles eram tão indefectíveis quanto os obeliscos e as estátuas de Ramses II, e seguravam o armamento com uma incrível indolência. Eram parte da paisagem, sentados no alto das montanhas, sob o sol de 80 graus celsius (ponto em que os miolos de turista entram em ebulição) já às seis da manhã, e pareciam ter o poder de dormir de olhos abertos. "Quem eles acham que estão enganando?", ríamos nós, os incautos.
O que achávamos mais bizarro eram as caravanas de ônibus de turistas que saiam das cidades em direção ao deserto, onde está a maioria das atrações turísticas. A fila de veículos era precedida por uma viatura policial e, ao lado de cada motorista, viajava também um desses exemplares do Exército com uma senhora arma na mão. Nenhum estrangeiro entrava ou saia do perímetro urbano sem integrar uma dessas caravanas. Bom, em uma coisa estávamos certos: se algo acontecesse, aquela gente não iria adiantar pra nada.
Aconteceu uma semana depois de sairmos do país: um ônibus de alemães foi atacado em frente ao Museu Egípcio, no Cairo, e o saldo foi de dez mortos. Havíamos estado naquele mesmo lugar sete dias antes!
Algumas semanas depois, em novembro, o horror foi ainda maior: terroristas desceram das montanhas que circundam o templo de Hatshepsut, em Luxor, e martirizaram até a morte 58 turistas e quatro egípcios. A descrição que lemos nos jornais do que eles fizeram (a faca) com os estrangeiros foi paralisante. Havíamos estado ali poucas semanas antes. Podia ter sido conosco. E eles desceram daquelas mesmas montanhas sobre as quais fritavam os militares que ridicularizávamos.
(leia aqui sobre os últimos atentados contra turistas no Egito)
Enfim, não vá agora.

O motivo

Decidi escrever este relato de viagem depois que achei entre os livros da minha mãe, na praia, um título de Eça de Queirós que eu desconhecia: O Egito – Notas de viagem (Ed. Pradense, Porto Alegre, 2002). Resulta que o ilustre português visitou a terra dos faraós em 1869, por ocasião da inauguração do Canal de Suez, e deixou nos seus caderninhos anotações sobre a jornada, que incluiu também uma passagem pela Terra Santa. Os escritos foram reunidos depois da sua morte por seus filhos, José Maria e Alberto, e publicados em 1926.
O fato é que adorei ler a visão estrangeira de Eça sobre o Egito. Não só é uma visão diferente por ser européia, mas também por ter mais de um século de vantagem sobre a minha. E é sempre fascinante descobrir como os estranhamentos podem ser tão semelhantes nas suas profundas diferenças.
Daí que resolvi escrever. Não porque eu possa me comparar a Eça, no seu talento ou no seu preparo intelectual, mas porque a escrita é o meu meio privilegiado de me comunicar com o mundo. E percebi, oito anos e meio depois, que contei muito pouco dessa viagem para as pessoas que poderiam se interessar por ela. De uma parte, porque eu estava morando na Espanha, e minhas amizades por lá incluíam poucos amantes do turismo. De outra parte, porque eu não sou mesmo de falar muita coisa depois de uma viagem. Me acho muito ruim na hora de contar histórias, sôo chata, e penso sempre que os outros entenderiam melhor se eu escrevesse.
Bom, está aí o resultado. Ou melhor, partes dele, porque decidi ir escrevendo na Internet, pra quem quiser ler. Assim, eu posso contar aos amigos-amantes-de-viagem, como eu, o que não deu pra dizer naquela época. E, se as minhas impressões servirem pra outras pessoas, eu ficarei mais do que contente.